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Prefácio

murilo

Murilo Matos MendonçaOpenCourseWare Consortium Board Member, GUIDE Association Board Member, Unisul – Universidade do Sul de Santa Catarina

Foi somente em 2007 que ouvi pela primeira vez o termo Recursos Educacionais Abertos (REA), o motivo pelo qual eu havia sido convidado para uma reunião na UnisulVirtual, o campus da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) dedicado à educação a distância. Ao saber que o termo fora cunhado em 2002, meu primeiro pensamento foi o de que eu estava cinco anos atrasado, mas, ao mesmo tempo, não precisei de cinco minutos para compreender o potencial revolucionário dos REA. Imediatamente, ideias e perguntas começaram a passar pela minha cabeça de professor à medida que aquela reunião era conduzida e que não durou mais do que cinco minutos tampouco, tal era a urgência em nos inteirarmos a respeito de tudo aquilo que estivera acontecendo. E foi ali, naquela ocasião, que recebi o convite para embarcar em uma jornada que, mal sabia eu, a despeito de minha intuição de que se tratava de algo promissor, estava prestes a levar-me por cenários educacionais por mim antes não propriamente concebidos e a modificar minha percepção de educação – expandi-la, ampliá-la, abri-la  – de maneiras tão surpreendentes quanto belas.

E quando me dei conta, passados três meses daquela reunião, estava a caminho da Open University do Reino Unido, onde fui recebido de portas abertas, através das quais adentrei um mundo paralelo impressionante de oportunidades educacionais destinadas a todos. Durante uma visita de três dias, conheci o projeto OpenLearn, com sua série de características elaboradas para fazer dele, bem além de um repositório de REA, um ambiente com possibilidades a mais, tais como colaborações interinstitucionais e aprendizagem colaborativa habilitada por um conjunto de ferramentas de interação social. Tudo isso aliado a um panorama sobre licenças abertas serviu para que eu pudesse voltar para casa com uma bagagem repleta de ideias a ser compartilhadas com meus colegas da Unisul, a quem deixara à espera de boas novas. De pronto, lançamo-nos a utilizar, prover e promover a adoção de REA. Utilizamos REA em inglês, traduzimos e adaptamos REA para o português, compartilhamos nossos próprios REA em português e também fizemos a versão de alguns deles para o inglês para que fossem compartilhados também com outros públicos, além dos lusófonos. Não tardou para que nos déssemos conta do paradoxo etimológico do compartilhamento de REA, em que compartilhar não significa dividir, mas sim somar e/ou multiplicar.

Pouco tempo depois, em 2011, fui aceito como bolsista pesquisador pelo Projeto OLnet (Open Learning Network) da Open University do Reino Unido, que buscava investigar que impacto os REA teriam em seus usuários. E um ano antes, em 2010, a Unisul tornara-se membro do OpenCourseWare Consortium (OCWC). O OCWC foi formalmente fundado em 2008 e atualmente conta com aproximadamente 300 membros, em conseqüência do reconhecimento de que trabalhar com REA é uma atividade de natureza colaborativa. Ele presta amplo apoio a universidades e organizações que, através de diversas ações, desejem incentivar a adoção de REA e/ou confrontar problemas sociais e/ou institucionais através de abordagens pautadas pela educação aberta. Tendo cumprido um mandato como Membro Diretor do OCWC e atualmente cumprindo o segundo, estou mais do que nunca convicto em relação ao meu compromisso e ao poder transformador dos REA, especialmente por poder enxergar sob a perspectiva do Brasil, um país cujos padrões educacionais de toda sorte estão e sempre estiveram abaixo do que é minimamente esperado e aceitável.

Ao receber o convite gentilmente feito por Alexandra Okada para escrever o prefácio deste livro, senti-me não somente honrado, mas genuinamente grato, pois fui levado a fazer uma breve retrospecção acerca dos progressos da Educação Aberta. E como se pode constatar, em pouco mais que uma década, muito aconteceu no que tange ao movimento de abertura na educação. As instituições começaram por liberar o acesso a seus materiais, a exemplo do OpenCourseWare, a iniciativa do MIT anunciada em 2001. Então, vieram os repositórios e as questões sobre o que fazer com eles, como fazer com que as pessoas se beneficiassem deles à luz das inúmeras possibilidades proporcionadas pela Web 2.0. Além disso, como acompanhar e reunir dados sobre que tipo de impacto os REA podem ter tanto para usuários quanto provedores. O ano passado foi marcado pela assinatura da Declaração de REA de Paris de 2012 durante o Congresso Mundial sobre Recursos Educacionais Abertos (REA) de 2012,  na UNESCO, dez anos após o termo REA ter sido estabelecido. E, hoje, as comunidades acadêmicas e outros setores da sociedade discutem não somente REA, mas também PEA (Práticas e Políticas Educacionais Abertas), que abrangem uma crescente gama de aspectos, tais como inquietudes pedagógicas, questões de dominância cultural, itinerários de aprendizagem, desenvolvimento curricular, políticas de validação/certificação de conhecimento informalmente adquirido, modelos de negócio e de sustentabilidade e aprendizagem colaborativa, para citar alguns. Todos estes aspectos encontram-se sob o escopo do que veio a ser chamado, de uma forma mais ampla, de Educação Aberta.

Diante deste contexto, vejo este livro como um marco. Constitui uma obra de notória relevância por entrecruzar uma série de artigos que ilustram a transição de um início voltado principalmente à provisão de REA para uma nova fase, em que o conhecimento é compartilhado, intercambiado e, o mais importante, construído coletivamente. O livro parte do considerável impacto que a Web 2.0 e a cultura participativa que a ela subjaz tem exercido sobre o desenvolvimento dos REA. E desenvolvimento aqui implica criar, co-criar, compartilhar, remixar, reaproveitar, utilizar, reutilizar, colaborar! As possibilidades de interação inerentes à Web 2.0 desempenham um papel decisivo nas novas formas pelas quais o conhecimento está sendo não apenas disseminado, mas também des- e reconstruído – coletivamente.

A relação simbiótica entre REA e cultura participativa tanto gera quanto demanda novas formas de ensinar e de aprender que não podem ser ignoradas e que valem para todos os níveis da educação: fundamental, médio e superior, para que se possa responder às necessidades educacionais locais e globais. Portanto, é fundamental que analisemos de que forma se dão esses processos de ensino e aprendizagem. E nesse sentido, o presente livro serve como ponto de partida ideal por reunir um admirável conjunto de estudos que lançam luz sobre tais processos, caracterizados por interação e colaboração em torno de REA. O livro constitui, por si só, um exemplo de conhecimento construído de forma coletiva, visto que congrega um número extraordinário de autores e temas, está publicado sob licença aberta, está disponível em diferentes mídias e é trilíngue. Em outras palavras, este livro é a materialização do que por ele é abordado.

Expresso a minha gratidão tanto à Open University do Reino Unido e ao OpenCourseWare Consortium por tornarem minha vida muito mais rica e e plena de propósito – por ambas serem duas organizações que generosamente constroem e abrem convite para qualquer um construir em conjunto e em parcerias.

Vislumbro um cenário mundial de oportunidades educacionais para todos. As transformações já estão em curso. E este livro é um testemunho disso.

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